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quinta-feira, 17 de abril de 2014

MP e Conselho Tutelar foram informados que Bernardo teria sofrido "tentativa de asfixia" por madrasta




O advogado Marlon Balbon Taborda, que representa a avó materna do menino Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, morto no dia 4 de abril, alertou ao Conselho Tutelar de Santa Maria, no dia 22 de novembro de 2013, e ao Ministério Público de Três Passos, em 6 de dezembro do mesmo ano, sobre o risco de vida que corria o menino.

Em troca de e-mails obtida por Zero Hora, Taborda informa, baseado em denúncia feita por uma babá que tinha relação íntima com Bernardo, que o garoto "estava andando pela rua, abandonado, que foi tentado ser asfixiado em uma noite quando estava em casa, fato confirmado pelo menino." Conforme o Ministério Público, a denúncia é de 2012.

Em outro trecho do documento, o advogado da família alertou: "A (babá) me expôs de forma categórica no telefone que quem fez isso foi a atual esposa do pai do menino. Disse também que a 'polícia bateu lá', e que o pai do Bernardo estaria internado por motivos alheios. Em suma, a preocupação da avó é que o seu neto esteja sem referencial de família, pois estaria abandonado pelo pai e com estranhos", ressalta o defensor no documento.

Antes de procurar o Ministério Público, Taborda enviou a mesma denúncia ao Conselho Tutelar de Santa Maria. No documento encaminhado aos conselheiros, o advogado explica que, diante das ameaças, o menino estaria com uma outra família, que o acolheu diversas vezes. 

O texto diz o seguinte: "(A família) confirmou que o menino realmente está com ela, e que não tem e nem quer ter notícia do pai do menino BERNARDO, de nome LEANDRO BOLDRINI. Que o menino está sem pai e sem mãe. Deu a entender que algo grave aconteceu, mas não disse e a avó não sabe o que... Assim sendo, o que se precisa é averiguar a situação."

O conselheiro tutelar Alexandre Almeida da Silva respondeu que "na época eu falei com o advogado a respeito dessa denúncia, e a avó também nos procurou. Eles falavam sobre uma possível situação de risco desse menino. Eu orientei o advogado da família a mandar fazer a denúncia no local de domicílio da criança, como é a regra geral. Dei a ele o telefone do Conselho Tutelar de Três Passos."

Os e-mails obtidos por Zero Hora são entre novembro de 2013 e dezembro do mesmo ano. A última mensagem encaminhada pelo Ministério Público de Três Passos convida o advogado e a avó de Bernardo a irem até a cidade para esclarecer as denúncias. Taborda alegou que ela era doente e não podia se deslocar, tendo que falar ao MP em Santa Maria, cidade onde reside.

Procurada por Zero Hora, a promotora Dinamárcia Maciel de Oliveira confirmou a troca de e-mails. Ela explicou que a avó do menino prestou depoimento em Santa Maria e que, em seguida, o MP pediu à Justiça que a guarda de Bernardo fosse transferida para ela:

– Eu entrei com pedido de guarda para a cliente dele (do advogado) ficar com o Bernardo no dia 31 de janeiro de 2014. Depois, o juiz optou por marcar as audiências com o pai e o menino. Eu pedi a audiência com a avó junto. Fiz tudo que estava a meu alcance. 

Em janeiro, Bernardo foi levado ao MP por um agente da rede de proteção. Negou sofrer maus-tratos físicos e violência, mas disse que o pai era indiferente e que a madrasta implicava com ele. No final de janeiro, a promotora ingressou com ação na Justiça pedindo que a guarda provisória fosse dada para a avó materna, em Santa Maria.

O juiz entendeu por marcar uma audiência com o pai de Bernardo, que ocorreu no começo de fevereiro. Durante a conversa, o pai admitiu falhas, disse que trabalhava demais e pediu uma chance de reaproximação com o filho. Bernardo também aceitou: "vamos tentar", disse na ocasião o menino.

Conforme a promotora, foi estipulado um prazo para uma nova avaliação da situação. Desde então, nenhuma informação sobre problemas na relação chegou ao MP. Dinamárcia destacou que em toda a apuração não surgiu qualquer indício de que o menino corresse perigo ou estivesse sofrendo violência.

Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, desapareceu no dia 4 de abril, uma sexta-feira, em Três Passos, município do Noroeste. De acordo com o pai, o médico cirurgião Leandro Boldrini, 38 anos, ele teria ido à tarde para a cidade de Frederico Westphalen com a madrasta, Graciele Ugolini, 32 anos, para comprar uma TV.

De volta a Três Passos, o menino teria dito que passaria o final de semana na casa de um amigo. Como no domingo ele não retornou, o pai acionou a polícia. Boldrini chegou a contatar uma rádio local para anunciar o desaparecimento. Cartazes com fotos de Bernardo foram espalhados pela cidade, por Santa Maria e Passo Fundo.

Na noite de segunda-feira, dia 14, o corpo do menino foi encontrado no interior de Frederico Westphalen dentro de um saco plástico e enterrado às margens do Rio Mico, na localidade de Linha São Francisco, interior do município.

Segundo a Polícia Civil, Bernardo foi dopado antes de ser morto com uma injeção letal no dia 4. Seu corpo foi velado em Santa Maria e sepultado na mesma cidade.

No dia 14, foram presos o médico Leandro Boldrini _ que tem uma clínica particular em Três Passos e atua no hospital do município _, a madrasta e uma terceira pessoa, identificada como Edelvania Wirganovicz, 40 anos, que colaborou com a identificação do corpo. O casal aparentava uma vida dupla, segundo relatos de amigos e vizinhos.

Fonte: Zero Hora

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