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sábado, 26 de setembro de 2015

O mistério dos “ginandromorfos”, animais que são metade macho, metade fêmea



Olhando pelo lado direito, um frango da granja de H. E. Schaef se parecia com qualquer galo juvenil, com sua crista e papo vermelhos. Mas, pelo outro lado, seria possível pensar que se tratava de uma galinha, com seu corpo mais leve e arredondado.

Até o comportamento do animal era confuso: uma hora tentava acasalar com outras galinhas; em outra hora, punha ovos.

Quando a ave morreu, Schaef decidiu assá-la para o jantar. Mas, depois de depenada, ficou claro 
que o lado direito de seu corpo era muito maior que o esquerdo.

E, ao abrir a criatura, ele se surpreendeu ao encontrar um testículo e um ovário. Era como se alguém tivesse cortado uma galinha e um galo pela metade e juntado os dois corpos, sem deixar remendos.

A carne do animal acabou no estômago de Schaef, mas o esqueleto foi doado à anatomista Madge Thurlow Macklin, que publicou suas análises na revista científica Journal of Experimental Zoology, em 1923.

Hoje em dia, animais como esse são chamados de “ginandromorfos bilaterais”. Diferentemente dos hermafroditas, cuja fusão de sexos normalmente se encerra nos genitais, esses seres têm o corpo inteiro dividido em dois: macho de um lado e fêmea de outro.

Quase um século depois da estranha refeição de Schaef, muitos outros exemplos de ginandromorfos já foram encontrados entre lagostas, caranguejos, bichos-da-seda, borboletas, abelhas, serpentes e várias espécies de aves. Suas estranhas características podem explicar alguns dos mistérios do desenvolvimento do sexo no organismo.

É impossível determinar exatamente qual a frequência com que esses seres surgem na natureza. O biólogo Michael Clinton, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, estima que uma em cada 1 milhão de aves se desenvolve dessa maneira. Não se sabe a incidência entre mamíferos.

Durante muito tempo, cientistas assumiram que o fenômeno se devia a um acidente genético após a concepção.

O sexo biológico é determinado pela combinação dos cromossomos sexuais. No ser humano, os homens têm um cromossomo X e um cromossomo Y, enquanto as mulheres têm dois cromossomos X. Em outras espécies, essa definição ocorre de maneira distinta. Em galináceos, por exemplo, os machos têm dois cromossomos Z, enquanto as fêmeas têm um Z e um W.

Há poucos anos, Clinton e sua equipe tiveram a chance de estudar a fundo três exemplares de galinhas ginandromorfas. Quando examinou os genes dos animais, o cientista descobriu que elas tinham cromossomos sexuais normais – ZZ de um lado e ZW de outro.

Ou seja, as criaturas eram basicamente formadas como dois gêmeos bivitelinos unidos pelo 
centro.

Clinton agora tem outra teoria para a origem da ginandromorfia: quando um óvulo se forma, ele deve descartar metade de seus cromossomos em um pacote de DNA chamado de “corpo polar”. 

Mas, em casos raros, o óvulo pode manter o corpo polar, assim como seu núcleo.

Se ambos forem fertilizados e a célula começar a se multiplicar, cada lado do corpo se desenvolve com seu próprio genoma e seu próprio sexo.

Esse aparente acidente pode, na realidade, ser um truque evolutivo que deu errado

Faz tempo que biólogos sabem que a proporção de machos e fêmeas em uma determinada população pode mudar de acordo com o entorno. Durante épocas de mais estresse, as mães têm mais chance de produzir fêmeas – essas têm mais chances de encontrar um parceiro e passar adiante o DNA da mãe.

Clinton acredita que se o óvulo da mãe mantiver seu corpo polar, criando dois núcleos, e cada um deles for fertilizado, ela terá um embrião metade macho e metade fêmea.

A mãe poderia, então, rejeitar o sexo indesejado antes mesmo de liberar seus óvulos, controlando perfeitamente o sexo de seus filhotes. No raro caso de o núcleo indesejado não ser descartado, o resultado seria um ginandromofo.

As conclusões de Clinton mostram que o sexo se desenvolve de maneira bem diferente em aves e em mamíferos.

Em espécies como o ser humano, são os hormônios sexuais que circulam pela corrente sanguínea que têm o papel mais importante na determinação do gênero do bebê. Isso pode explicar por que não encontramos muitos mamíferos ginandromorfos.

No entanto, o fato de os dois lados do corpo de uma ave poderem se desenvolver de maneira independente mostra que são as próprias células do animal que controlam sua identidade e crescimento.

Mas ainda não sabemos se isso se aplica a todas as criaturas ginandromorfas.

O biólogo Josh Jahner, da Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, estuda belas borboletas assimétricas. Ele suspeita que elas tenham origem em óvulos duplamente fertilizados, mas é possível que outros mecanismos contribuam para sua existência.

Fonte: BBC Brasil

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